Educação é coisa séria?

Pedro Grava Zanotelli

Fonte: http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=238737

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Pergunte para a presidente Dilma, para os governadores Alckmin e Richa e para os demais governadores e prefeitos do Brasil, se a educação, em seu governo, é coisa séria. Certamente, todos dirão que sim, mas será que algum deles diz a verdade? Claro que não. Como poderiam dizer a verdade diante de uma realidade contrária, diariamente vivida pela população e escancarada pelos jornais e TVs? Greves de professores explodem pela maioria dos Estados, deixando os alunos sem aulas por meses. Se com aulas regulares apresentam resultados vergonhosos, como ficam depois de tanto tempo fora da escola? A resposta é que haverá reposição para compensar, o que é outra grande mentira. Remendar o calendário escolar, usando períodos de férias e horários incomuns, só serve para justificar o cumprimento de carga horária e de dias letivos. O aproveitamento é ínfimo, mas os transtornos e descontentamento para os alunos, suas famílias e para os próprios professores são enormes, como os prejuízos para a Nação.

Como é possível os governos dizerem que levam a sério a educação, quando não garantem, para todos, um espaço adequado para a aprendizagem, tanto de conhecimentos quanto de bons costumes? A educação básica (infantil, fundamental e ensino médio) é obrigatória dos 4 aos 17 anos. Essa obrigatoriedade não faz distinção entre os filhos de ricos e de pobres e se são de regiões desenvolvidas ou de interior paupérrimo. E qual é a situação real? De aulas em instalações modernas e bem equipadas a aulas embaixo de árvores ou prédios destelhados, com goteiras e vazamentos, sem sanitários ou com sanitários imundos. Isso sem dizer que, em muitos lugares, nem nessas condições é possível estudar porque não há lugar para todos. Se os pais têm a obrigação de mandar o filho à escola, o governo tem a obrigação de dar a escola condigna.

Como é possível os governos dizerem que levam a sério a educação, quando os professores não têm uma situação de respeito, com formação compatível com o nível em que vão trabalhar e com remuneração justa? Para a educação fundamental, da 1ª à 5ª série não há necessidade de ensino superior, mas de uma boa formação para o magistério, como eram os formados nas antigas Escolas Normais. Para a educação infantil, além disso, uma especialização. Da 6ª à 9ª série e no ensino médio, o ensino de disciplinas exige formação superior específica. Hoje há lugares onde se exige formação superior para todos e lugares onde o professor não tem nem o ensino médio. E é dentro dessa disparidade que foi estabelecido o piso nacional do magistério, que neste ano é de R$ 1.917,78, para uma jornada de 40 horas semanais. Estados e municípios que não podem pagar, não pagam, e embora a lei diga que a União deve complementar, não prevê nenhuma punição para quem não a cumpre e fica por isso mesmo.
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Como é possível os governos dizerem que levam a sério a educação, quando planos de ensino e recursos didáticos ficam a critério de cada um, mudando com as mudanças de ministros e secretários, sem seguir um padrão nacional? Há um equívoco entre ensinar com as realidades regionais e ensinar para a formação do cidadão brasileiro. A unidade nacional e a mobilidade social exigem a mesma formação em todo o território nacional. O uso de recursos regionais entra na metodologia, na didática e não na finalidade da formação. Essa falta de padrão e de conhecimento da realidade nacional tem provocado desperdício de recursos na produção de livros escolares impróprios e de fornecimento de computadores e tabletes onde nem energia elétrica existe.

Agora, existe o Plano Nacional de Educação, com suas 20 metas e que talvez não passe de “intenções” se nenhuma medida concreta vier a ser proposta. O velho-novo ministro para Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, já fez o seu plano, que o governo deu de presente para o novo ministro da Educação. Ali, ele propõe a federalização, ideia que confere com a do senador Cristovam Buarque. A União tem que assumir a responsabilidade de levar a educação a sério, conduzindo-a como um projeto de Nação e acabar com essa espécie de terceirização, jogando-a para Estados e municípios fazerem como quiserem e como puderem.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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