Em criança não se bate de jeito nenhum

Sabe o que há de maravilhoso em ter filhos? Só tem quem quer. Não é obrigatório! Isso mesmo, ter ou não ter filhos é uma escolha absolutamente racional. Não é uma decisão que se tome porque se está apaixonado por alguém, ou porque está à procura de um sentido para a vida, ou porque se esteja a sentir solitário e ande a sonhar com uma família daquelas dos anuncios. Tornar-se pai ou mãe envolve um enorme compromisso que é responsabilizar-se cem por cento pela vida de uma outra pessoa que, não escolheu ser a sua extensão, continuação, inspiração ou coisa que o valha.

E sabe o que há de terrível em ter filhos? É que um grande número de homens e mulheres tomam essa decisão para cumprir um papel social ou fazem-no, simplesmente, por acidente, ou porque fizeram sexo sem proteção ignorando o facto de que é exatamente assim que nós, seres humanos, nos reproduzimos. E o que se pode esperar de pessoas que trouxeram outra pessoa a este mundo por pressão social ou por imprudência?

Seguindo esta linha de raciocínio, passemos a uma necessária reflexão sobre o que é responsabilizar-se pela existência de um ser humano. Nascemos filhotes, exatamente como as outras espécies animais, só que com uma pequena diferença: dependemos dos nossos pais para absolutamente tudo; e se formos abandonados sem cuidados, morremos; tão simples quanto isto!

Ao contrário das outras espécies animais, permanecemos dependentes durante grande parte das nossas vidas. Bem, na verdade, alguns  ficam dependentes eternamente. Mas, voltando ao fulcro da questão, os seres humanos costumam depender dos seus progenitores até que sejam capazes de prover seu próprio sustento e responsabilizar-se por si mesmos. E antes disso acontecer, os seres humanos passam pela infância e não há o que se possa fazer para alterar esse fato.

Sendo assim, fica claro que ter filhos é um projeto e uma tarefa de longo prazo. Passados os primeiros desafios de cuidar de um bebé, o que envolve noites sem dormir, alterações importantes na rotina de vida, choros indecifráveis, um amor de tirar o fôlego, fraldas sujas, intercorrências de saúde inesperadas, alegrias desmedidas e mais um tanto imenso de outras variáveis que ocupariam páginas e mais páginas de texto, esse bebé vai crescer e passará a ser uma versão de ser humano tão encantadora quanto desafiadora, chamada criança.

As crianças são seres humanos na fase mais interessante da vida. Costumam ser inquietas, curiosas, desconcertantemente espontâneas, algumas vezes cruéis, muitas vezes apaixonantes e são um mistério quase completo para os adultos que teimam em não admitir que já foram crianças um dia.

As crianças precisam de atenção, de carinho, de cuidados físicos, de autoridade amorosa, de exemplos vivos de comportamento ético, de coerência entre ação e discurso, de um ambiente alegre e saudável para se desenvolver. Uma criança precisa de educação e educar é uma função intransferível daqueles que se responsabilizaram por ela, seja por vias biológicas ou não.

Educar uma criança não é tarefa fácil, sendo muito exaustivo tanto do ponto de vista físico quanto emocional e psicológico. Há crianças que necessitam de mais de cuidados, exatamente pelo facto de serem mais difíceis de se lidar porque acreditam que o mundo lá fora terá dificuldades em amá-las e é, exatamente por isso que precisam de ser amadas dentro desse núcleo familiar que ESCOLHEU tê-la.

Não se bate nas crianças. Nunca. De jeito nenhum. Sob nenhum pretexto. E, não, não pode dar nem uma palmada na hora certa, nem uma chinelada no rabo. Não pode e pronto! Quando o adulto responsável chega ao cúmulo de desejar ferir uma criança, é porque perdeu completamente a dimensão da sua missão em relação a ela. O adulto responsável que recorre a gritos, ameaças e agressões (por menores que sejam), passam para a criança a seguinte mensagem: “Estou perdido. Não sei o que fazer contigo.”

Além disso, o facto de se descontrolar perante uma criança porque está a desafiar a sua autoridade, seja ela parental ou não; ou porque parece ter muitas dificuldades em seguir regras ou porque teima em não cumprir as combinações e está constantemente a testar a sua paciência, equivale a ensiná-la que é isso que ela deve fazer perante os inúmeros e variados desafios ao longo da vida.

Educar uma criança requer que o responsável se lembre SEMPRE que ele é que é o adulto da relação. Que as crianças são seres em formação e o seu comportamento pode e vai ser difícil muitas vezes. Corrige-se uma criança com firmeza e doçura ao mesmo tempo, olhando nos olhos, em voz baixa e calma. Corrige-se uma criança, oferecendo-lhe meios de transformar o seu comportamento a partir de exemplos de conduta estável e coerente. Corrige-se uma criança em privado, nunca à frente dos outros. Corrige-se sem humilhar.

Portanto, se fez a escolha de se responsabilizar por uma criança, entenda de uma vez por todas que essa escolha redefinirá a sua vida a partir do nascimento, ou melhor, desde a concepção deste bebê.  Esqueça as expectativas de trazer uma bonequinha ou um bonequinho para casa e aproveite a oportunidade para trazer à tona a sua melhor versão de si mesmo, para que esse filho se possa sentir seguro, amado e respeitado.

Por Ana Macarini, para A Soma de Todos os Afetos  adaptado por Up To Kids®

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