Por que as crianças não serão vacinadas contra a Covid-19 agora? – ENTENDA E COMPARTILHE

Às vésperas da campanha da vacina contra o novo coronavírus ser incorporada a um plano de imunização dos grupos prioritários escolhidos pelo governo em terras brasileiras – embora ainda sem data exata para acontecer nem critérios unificados para todo o território -, sobram especulações e restam muitas dúvidas sobre o assunto. Entre elas, o fato de não se saber quando crianças, adolescentes e gestantes receberão a tão esperada dose.

Mas isso não é motivo de preocupação, tranquiliza o infectologista pediátrico Márcio Moreira, do Hospital Israelita Albert Einstein: “Cada grupo etário demanda nova avaliação para comprovar a eficácia da vacina de acordo com a resposta imunológica”, explica. Como é de praxe na produção de vacinas, os testes clínicos foram realizados primeiro nos mais velhos.

“Só podemos vacinar grupos nos quais a vacina foi testada. E as crianças ainda não foram testadas”

Ainda que o ideal seja vacinar todas as pessoas – ou o maior número de pessoas -, os grupos que terão prioridade num primeiro momento são aqueles com maior risco de complicações ou maior exposição ao vírus, como idosos e profissionais da saúde. Como adianta o especialista, “se a doença está comprometendo basicamente adultos, vaciná-los certamente terá um impacto positivo para todos”.

Serão quatro fases, inicialmente:

  • trabalhadores da saúde, idosos a partir dos 75 anos, pessoas com 60 anos ou mais que vivem em asilos ou instituições psiquiátricas, por exemplo, e população indígena;
  • pessoas de 60 a 74 anos;
  • pessoas com comorbidades com maior chance de agravamento da doença (como portadores de doenças renais crônicas ou cardiovasculares);
  • professores, forças de segurança e salvamento e funcionários do sistema prisional.

Ao todo, esta campanha somaria 109,5 milhões de doses, enquanto há 200 milhões de brasileiros aguardando sua vez.

Crianças no fim da fila para receber a vacina é um problema?

Em geral, o público infantil é menos suscetível à doença: infecta-se de duas a cinco vezes menos que os adultos; apresenta casos leves e baixa taxa de mortes por Covid-19 se comparado a outras faixas etárias; e não é considerado o principal agente de transmissão do vírus. Mas, “embora os casos em pediatria sejam menos graves, os pais devem vacinar as crianças (quando a vacinação chegar)”, reforça o infectologista.

A vacinação em crianças e adolescentes é mesmo anterior à dúvida se haverá doses suficientes para imunizar os grupos selecionados e se haverá duas aplicações este ano, pois só agora alguns testes da vacina para este grupo estão em andamento enquanto outros laboratórios planejam iniciar o estudo em breve.

A Pfizer começou a testar a vacina em adolescentes a partir de 12 anos em outubro. A Moderna anunciou em dezembro que planejava iniciar os testes em adolescentes de 12 a 17 anos. A AstraZeneca informou que também incluirá em breve nos testes crianças entre cinco e 12 anos. Já o Instituto Butantan, que coordena o estudo clínico de fase 3 da Coronavac por aqui, está realizando testes apenas em maiores de 18 anos, mas, na China, voluntários entre três e 17 anos logo começarão a participar dos testes.

Márcio acredita que, como os protocolos são muito semelhantes, “a incorporação das crianças na fila da imunização pode ser mais rápida do que a gente está imaginando nesse momento” e, talvez, quando a imunização infantil acontecer, o contexto pandêmico já esteja mais atenuado. Ele aposta na estimativa de menos de um ano, mas não antes de seis meses. Essa previsão também deve considerar logística, armazenamento, além da capacidade da indústria farmacêutica em produzir a quantidade de doses necessárias.

Sobre o processo, Márcio adianta que deve seguir a correspondência com os testes em idosos, “provavelmente diabéticos, hipertensos, por terem risco, deverão ser priorizados”. Em relação à vacinação em crianças imunodeprimidas ou com deficiência, o especialista comenta que “quanto mais diverso o grupo no protocolo, melhor. Mas tem alguns que não poderão ser incluídos devido ao impacto que isso representaria para um sistema imune menos hábil ou debilitado, pela doença ou pelo tratamento em curso”.

As gestantes ainda não fazem parte dos grupos que serão testados, pois envolvem questões relacionadas à mulher, ao bebê e à dupla. Além disso, é difícil conseguir autorização de comitês de ética para incluir gestantes em pesquisas. Mas, por ser uma situação transitória, o infectologista Márcio Moreira não vê motivo de preocupação, embora seja compreensível a angústia em tempos de pandemia: “Trata-se de um grupo pequeno de mulheres que estão gestantes agora mas que, tão logo tenham dado à luz, poderão receber uma dose”. De todo modo, as pesquisas sobre as vacinas contra a Covid-19 no Brasil estão sendo produzidas a partir do vírus inativo, o que asseguraria seu uso pelas futuras mamães, sem complicações também para o feto.

De qualquer modo, o impacto coletivo da vacina deve gerar maior segurança para a população ao redor – quanto mais gente estiver imunizada, maior a possibilidade de se proteger os casos mais vulneráveis, inclusive quem não pode tomar a vacina por conta de doenças imunológicas, por exemplo, e também aqueles em que a vacina simplesmente não funciona.

Vacina não é uma questão individual, mas coletiva

Vacinas são um instrumento de proteção individual e importantes também para a saúde pública por seu valor epidemiológico em reduzir ou mesmo erradicar doenças. Embora a vacina não impeça a transmissão, caso se tenha contato com o vírus, ela gera resistência e anticorpos aos organismos imunizados. Portanto, o uso de máscaras, higienização adequada das mãos e manutenção do distanciamento físico seguem altamente recomendados.

Márcio defende estimular todo mundo a tomar e sustenta: “A vacina é segura. Se ela não se mostrar tão eficaz quanto a gente gostaria, tomamos a outra depois”.

“Se a gente tem uma vacina segura, vamos tomar, é melhor tomar”

“Afinal, ninguém está disposto a pagar para ver como a doença se comportaria em seu organismo, certo?”, alerta o infectologista. O objetivo da vacina é evitar que o coronavírus se desenvolva no organismo e impedir que a pessoa adoeça ou, se adoecer, que seja de forma mais branda.

“Toma uma picadinha para evitar pegar a doença, independente se ela vai te matar ou não”

O comentário é pertinente sobretudo em um momento em que cresce o “movimento antivacina”. Defensores da não vacinação se recusam a vacinar seus filhos movidos por fatores como a descrença no sistema de saúde, a desconfiança sobre a procedência das vacinas oferecidas, medo dos efeitos colaterais, porque a prática deixaria as crianças mais suscetíveis a doenças ou por acreditarem que vacinar contra doenças erradicadas é desnecessário. Além disso, pela primeira vez em quase 30 anos, houve um declínio na taxa de vacinação de rotina em crianças em todo o mundo devido à pandemia de coronavírus, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O perigo de não vacinar as crianças
No Brasil, a cobertura vacinal ficou abaixo dos 50%, segundo dados do DataSus, sendo a meta de vacinação nacional do Ministério da Saúde de 90 a 95%. Até 2015, o Brasil mantinha a vacinação das crianças acima de 90%, garantindo proteção contra doenças preveníveis, como poliomielite e sarampo. Porém, nos últimos anos, houve oscilações nos índices de mortalidade infantil, materna e na infância, aliadas à queda na taxa de coberturas vacinais, segundo dados do Unicef. A interrupção, mesmo que temporária da imunização de rotina, pode levar a surtos de doenças imunopreveníveis. A recomendação é retomar o calendário vacinal regular para as crianças mesmo em pandemia.

FONTE: Lunetas

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